domingo, 3 de janeiro de 2010

Falta de gosto

Considero a esperança um sentimento extremamente brega. Digo isto por conta do rótulo de frustração dado aos resultados da COP15, a reunião sobre clima, promovida pela ONU, em Copenhague, no final de 2009. Só gente ingênua e malvestida de ONG ambientalista para achar que uma conferência da ONU – sobre o que for – pode salvar o planeta.

Apelos ingênuos ao sentimento pela preservação do planeta não funcionam. Há a questão política. Os governantes dos países respondem primeiro ao seu público interno, seus eleitores.

Um presidente ou primeiro-ministro pode até adotar um discurso verde para fora. Mas ele não pode tomar medidas que prejudiquem de imediato a indústria – redução de emissões – e a agricultura – redução de rebanhos - de seu país apenas porque uma turma de bicho-grilo grita que o mundo vai acabar amanhã. O Brasil perderia muito dinheiro se deixasse de desmatar para plantar soja e criar gado. Dizem que os gases liberados pelos bois são bem poluentes. Mas alimentação e balança comercial estão à frente.

Outra coisa é desconsiderar a natureza humana. Gente é bicho. Age por impulsos e instintos. As pessoas não vão parar de desejar. E mais: de realizar os desejos.

Quero ver alguém convencer um chinês – ou qualquer outro habitante do planeta que tenha aumentado a renda e o poder de compra – que, agora que ele tem grana para comer carne, não vai poder porque a criação de gado e o processamento da carne favorecem o aquecimento global. Só dá para fazer isso com muita violência. E mesmo a China não fará isso. Ela quer mais, é claro, que seu mercado aqueça junto com a Terra, se for o caso.

Produtos ecologicamente corretos só vingarão se forem eficazes e financeiramente acessíveis. Não vou trocar meu carro a gasolina – ou mesmo bicombusível, gasolina e álcool – por um elétrico lento e com pouca autonomia somente porque dizem que daqui a 100 anos, talvez, a vida no planeta comece a ficar caótica.

Sequer há certeza de que o aquecimento global foi mesmo produzido por ação humana. E não importa de quem é a culpa. A natureza continuará a ser sugada e modificada. Com ou sem interferência do homem.

A ideia de salvação deve ser abandonada. Tanto por refinamento quanto em termos de leitura da realidade. Eu vou usar – água, combustíveis fósseis e animais – enquanto estiverem disponíveis. E no volume que meus desejos e minha grana permitirem.

Se o mundo acabar, acabou e pronto. Essa história de que mundo deixar para filhos e netos é balela. O único legado que pais proporcionam aos filhos é a morte
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sábado, 12 de dezembro de 2009

Palestra



AUTOSSUFICIÊNCIA AFETIVA

A SUPERAÇÃO DO IDEAL ROMÂNTICO



CONTEÚDO PROGRAMÁTICO





INTRODUÇÃO


AMOR NÃO PRESTA: COMO O ROMANTISMO MINA A INDIVIDUALIDADE


PARTE 1 - MITIFICAÇÃO DO AMOR ROMÂNTICO


· BREVE HISTÓRIA DO AMOR
· RELIGIÕES E PERPETUAÇÃO DO AMOR ROMÂNTICO
· CONSTRUÇÃO DO ROMANTISMO NAS ARTES
· AMOR, PAIXÃO E SUAS DOENÇAS
· O FARDO DO CASAMENTO
· AMOR NA CONTEMPORANEIDADE
· TENDÊNCIA: MULTIPLICIDADE DE PARCEIROS


PARTE 2 - TRATAMENTOS PARA O AMOR ROMÂNTICO


· NEUROQUÍMICA DO AMOR E DA PAIXÃO
· NEUROPSICOLOGIA DO AMOR
· TRATAMENTOS MEDICAMENTOSOS PARA ATACAR O ROMANTISMO
· TERAPIAS COMPORTAMENTAIS ANTIRROMÂNTICAS



PARTE 3 - OUTROS AMORES NOCIVOS


· AMOR A ANIMAIS: CARÊNCIA TOTAL
· AMOR A FILHOS E CRIANÇAS: O FIM DA CURTIÇÃO
· AMOR AO TRABALHO: ANULAÇÃO IDENTITÁRIA
· AMOR A DIVINDADES: A GRANDE ILUSÃO


CONCLUSÃO


APOLOGIA DA SOLIDÃO: AUTOAFETIVIDADE


DURAÇÃO


50 MINUTOS


CONFERENCISTA


MARCELO AMARAL, 33 ANOS, É ELE.


CONTATO


BLOG:
WWW.OINSENSIVEL.BLOGSPOT.COM
E-MAIL: MCAMARAL@UOL.COM.BR

TEL: (11) 3735-0068
CEL: (11) 9196-0246

Ergofobia

Tenho um medo patológico. Ergofobia. Significa horror ao trabalho. Só vi outra pessoa admitir publicamente, até hoje, ser ergofóbico: o playboy Chiquinho Scarpa. A conta bancária dele permite viver muito bem o distúrbio. A minha, não. Mas eu não largo a preguiça.

O estilo contemplativo de levar a vida recebe forte reprovação moral. Há aquele clichê católico de que o trabalho dignifica o homem. A ética protestante do trabalho está impregnada. Até o marxismo exalta a labuta. Não apenas por prever uma revolução perpetrada por operários. E sim porque Karl Marx também dizia que o homem se realiza em sua atividade laboral. Então, quem não é chegado no trabalho, fica malvisto.

Só que na realidade trabalhar tem muito mais que ver com a vida prática do que com o resto. É pelo sustento que a maior parte das pessoas passa um tempão – mais de 10 horas por dia em muitos casos – executando tarefas chatas. Recebendo ordens de chefes tidos como imbecis. E sendo rodeadas por colegas que suspeitos de serem sacanas.

O lance de dar uma dimensão religiosa e espiritual ao trabalho é maquiagem. Perfumaria. Para tornar a coisa mais suportável. A realidade não tem graça para as pessoas. Isso é o que me intriga na mente humana. A incapacidade de aceitar a realidade de que tudo acontece de forma aleatória.

Os relacionamentos também entraram na lógica do trabalho. O papo que mais se ouve nesta área é que as relações afetivas e sexuais precisam ser trabalhadas e retrabalhadas todos os dias. É o esforço para manter a chama viva. Não sei por que tanta labuta. Basta trocar de parceiro. Arrumar um caso. Umas relações casuais.

Toda essa trabalheira não tem sido grande coisa. Meu hobby é ficar em cafeterias e praças de alimentação escutando conversa dos outros. E o que eu mais capto é lamentação sobre trabalho e relacionamentos.

Minha teoria é que exigência demais atrapalha. Profissionais que buscam o máximo, muitas vezes, se enrolam tanto que não fazem sequer o mínimo. Gente que põe altas expectativas e obrigações em um relacionamento acaba abandonada ou traída.

Não me incomodo de ver a vida passar. Não curto ação. Gosto de ser espectador e comentarista.

domingo, 18 de outubro de 2009

Pátria e pragmatismo


Uma lei promulgada recentemente obriga que todas as escolas públicas e privadas do Brasil toquem o hino nacional ao menos uma vez por semana. A justificativa é incutir mais patriotismo na mente das crianças e adolescentes. Duvido que a medida alcance este tipo de eficácia. Além de, por temperamento, tratar patriotismo, nacionalismo, ideologia política e religião como breguice e lavagem cerebral.

Ficar perfilado ouvindo a execução do hino – e, talvez, observando o hasteamento da bandeira do Brasil – vai ser encarado como pagar mico pelos alunos. Vai ser difícil colocar as crianças quietas. Elas vão querer que acabe logo para sair correndo. As adolescentes vão mascar chiclete, mexer no cabelo e olhar para bundas, peitos e rostos de colegas. Ninguém vai se lixar para o “Ouviram do Ipiranga”.

Doutrinação patriótica é coisa para regimes do tipo Coreia do Norte. As pessoas vão levar em conta suas vidas práticas. A molecada não vai se estimular por um hino com uma letra complicada. Eles querem saber de IPod e Mp5. Querem que o país ofereça acesso às tecnologias mais avançadas a preços viáveis. E, claro, oportunidades de formação e trabalho.

Caso contrário, vão ignorar as raízes e os nossos bosques - que têm mais vida, de acordo com o hino nacional brasileiro - e emigrarão. Os caras estão conectados com várias partes do mundo. Veem e ouvem coisas de toda parte do planeta. Tenderão a procurar lugares onde entendam que possam realizar seus desejos.

Lula é uma figura de destaque no cenário geopolítico internacional. O Brasil será sede da Copa do Mundo de 2014. O Rio de Janeiro vai abrigar a Olimpíada de 2016. Mas o Brasil está superestimado. Exemplo: os alunos brasileiros continuam se dando mal em testes e concursos mundiais. E isso não tem nada que ver com o fato dos jovens não cantarem que “um filho teu não foge à luta”.

É que agora, Lula inclusive, alguns têm dito que falar mal do Brasil é falta de patriotismo. Penso que quem reclama é porque têm mais percepção. Não se ilude. E, além disso, tem mais propensão a buscar melhoria do que os crédulos. Esse papo de falta de patriotismo foi o mesmo argumento usado pelo governo de George W. Bush para abafar os críticos das medidas tomadas após o 11 de setembro de 2001.

Cantar o hino nacional brasileiro nas escolas é bobagem. Os alunos vão fazer a vida é com Orkut, Facebook e Twitter.









domingo, 20 de setembro de 2009

Gente poética


Leio quase tudo apresentado como antirreligioso. É que sou quase nada poético. E, como religião é poesia, fico tentado a tomar conhecimento de qualquer crítica – enfurecida ou irreverente – dirigida à fé religiosa.

Eu considero que a principal distinção do ser humano em relação aos outros animais é a capacidade de fazer poesia. Cérebro de gente cresceu demais e passou a inventar coisas. Uma delas é acreditar que existe um ser superior responsável pela criação de tudo no Universo. E mais: o tal ser monitora as vidas das bilhões de pessoas que existem e já existiram na Terra. Por isso que eu não consigo ser sério.

O último livro contrarreligioso que li foi A morte da fé, do americano Sam Harris. Mesmo sendo agnóstico, vejo um problema na obra de Harris: a transformação do agnosticismo ou ateísmo em dogma. Em salvação. Trata-se da crença de que ao eliminar – ou, ao menos, reduzir brutalmente a influência - as religiões o mundo será melhor.

A justificativa é que há muita matança em razão de credos. Fato. Mas também é fato que a poesia humana já criou outras formas de impulsionar violência, como ideologia política e nacionalismo. E muitas outras serão fabricadas. Não há salvação.

Nada indica que a religião será erradicada. É tão ingênuo quanto crer em imortalidade da alma. Em alma. A ingenuidade poética do grande cérebro humano não dá mostras de que possa ser defenestrada.

Mas Harris expõe uma questão pertinente: uma proibição tácita de falar mal das religiões e dos crentes. Quando se deprecia verbal ou visualmente uma crença, os religiosos pedem respeito.

Falta de respeito é impedir que outra pessoa exerça sua fé. Seria agredir fisicamente alguém que carrega uma Bíblia. Ou destruir um templo. Mas dizer que não gosta, desaprova, acha ridículo ou absurdo acreditar em força superior é liberado. Trata-se apenas de explicitar o credo que as religiões não prestam. Tão legítimo quanto o Kaká usar uma camiseta com a inscrição “Eu pertenço a Jesus”.

Religião enche o saco. Atrapalha. Penetra em muitas áreas. Mas não há como eliminá-la. O que resta é falar mal dela.


www.twitter.com/marcamaral

domingo, 16 de agosto de 2009

Moralismo exemplar


Não cobro comportamento modelar de astros pop e atletas célebres. Estes não devem ser tomados como exemplo para crianças e adolescentes. Se os famosos adotam uma vida considerada desregrada, problema deles. E azar ou sorte de quem os usa como referência. Educação é responsabilidade de pais, outros familiares delegados e profissionais da área.

Comentaristas esportivos deram para patrulhar jogadores de futebol. Recentemente, o atleta Leo Moura, do Flamengo, foi execrado pela imprensa por ter dito palavrões em direção à torcida do Flamengo, em um jogo contra o Náutico, no Maracanã. Moura estava sendo bastante vaiado pelos torcedores. E, ao fazer o gol de empate do Flamengo, saiu xingando. Depois, no dia seguinte, pediu desculpas.

O comentário mais frequente na mídia esportiva foi do tipo “Isso não é exemplo, imagine você está assistindo ao jogo com o seu filho e aparece um jogador xingando a torcida”. Questão simples. O pai que considera a atitude de Leo Moura inadequada deve explicar isto a seu filho.

Entendo que as pessoas devem ser educadas tomando contato com a realidade. E na realidade existem xingamentos. Há conflitos. Violência. Pessoas tomam atitudes intempestivas. Cabe ao orientador fornecer ferramentas para que o jovem analise as coisas que o cercam. Detecte o que é cultural, social e legalmente aceito. Claro que alguns transgredirão. Só que professores e educadores pagos para fazer com que seus alunos assimilem os conceitos desejados por quem os contrata.

Outro exemplo. Na academia que frequento o som, geralmente, fica ligado na rádio 89 FM. Uma emissora de São Paulo que toca música pop e eletrônica. Eu estava na bicicleta ergométrica e na 89 estava sendo entrevistada uma banda adolescente. Não sei o nome da banda. Em dado momento, um dos integrantes da banda disse “fico o dia inteiro na internet”. Um cara – sujeito na faixa dos 35 anos, imagino - que se exercitava perto de mim ficou furioso. Soltou: “Como que o moleque fala uma coisa dessas! A garotada que gosta da banda vai se espelhar e ficar o tempo inteiro no computador”.

Completa falta de leitura de mundo em função de um moralismo. Os componentes da banda ficam muito tempo no computador porque pertencem à geração da garotada. Tem mais: adultos também ficam muito tempo na internet. Tanto no trabalho quanto em casa. Computador é a ferramenta que media relações profissionais e pessoais na atualidade. Velhinhos ficam na rede. Não tem cabimento patrulhar os rapazes da tal banda. Até porque o garoto pode se dar muito bem no computador. Quem sabe se torna um programador bem-sucedido. Um blogueiro remunerado. Ou crie um site que bombe e depois acaba vendendo-o por milhões.

Outra coisa: quem quer proteger demais o filho vai acabar criando um idiota. A criança ou adolescente sem contato com a realidade vai ser muito ingênua. Quebrará a cara quando tomar contato com a crueza e os conflitos das relações sociais. Alguém bobo assim é muito mais vulnerável. E o moleque que quiser experimentar drogas, vai experimentar. Mesmo com a superproteção dos pais.

Eu estou ligado nas obras dos artistas e nas jogadas dos atletas. Acompanho, sim, a vida pessoal de alguns deles. Só que como diversão. Nada de ficar preso a moralismo comportamental.






terça-feira, 7 de julho de 2009

Minoria sexual




Não sou heterossexual. Nem homossexual. Tampouco bi ou pansexual. Não sei se já existe um termo para denominar minha sexualidade. Então, inventei um: solossexual. Eu me basto sexual e afetivamente.

Sou o que representa efetivamente uma minoria sexual. Homo, bi e pansexualidade são desaprovadas por muita gente. Mas não são ignoradas. Mesmo com os carolas dizendo que se trata de pecado, uma doença que tem cura, não há como não reconhecer a existência de indivíduos que gostam de pessoas do mesmo sexo. Ou de todos os sexos. Gostam até de trepar com animais e objetos. Já a solossexualidade é completamente desacreditada. Os outros consideram viadagem enrustida ou algum distúrbio psicoemocional grave.

Mais ainda: solossexualidade é vista como imaturidade. Bobagem. Tem de ser maduro e bem-resolvido para não ter vergonha de ir sozinho ao cinema ou restaurante. Inclusive no Dia dos Namorados. Fazer isso gostando da solidão. É necessário ser emocionalmente desenvolvido para não ficar choramingando que no mundo atual não há mais amor e romantismo. E requer bastante autoconfiança enfrentar cobranças dos que ficam espantados - e até mesmo indignados - com os que não namoram, não casam e não procriam.

Sou partidário do evolucionismo e entendo a propensão biológica para o acasalamento. No caso dos humanos, a evolução produziu a paixão, o amor romântico e o casamento porque filhote de gente é muito dependente. E durante bastante tempo. Necessita do pai e da mãe por muitos anos para se alimentar e crescer. Daí a formação dos casais. Amor não é emoção. É um impulso, como a fome. Mais detalhes científicos podem ser obtidos no livro Por que amamos, da americana Helen Fischer.

Mas ocorrem mutações genéticas. Vai ver sou um dos X-Men. Daí o surgimento de outras orientações sexuais. E tais sexualidades heterodoxas – biologicamente falando – não eliminam sequer tendências paternais e maternais. Basta ver o número de casais de gays e lésbicas que adotam, querem adotar ou arranjam uma barriga de aluguel ou doador de esperma para poder ter filhos.

Solossexuais não contam com políticas públicas. Heterossexuais que não desejam mais ter filhos podem fazer vasectomia e laqueadura de graça pelo Sistema de Saúde brasileiro. Nosso governo também já oferece cirurgias de mudança de sexo.

Também quero ser beneficiado. Devo ter acesso aos meus direitos daqueles que desejam planejamento familiar. Uma vasectomia particular custa entre oitocentos e um mil reais. Como os transexuais, quero conforto psicológico. Eliminar a possibilidade de ter filhos traria grande alívio para mim. E mais que tudo isso: o mundo está com overbooking. Quem não quer reproduzir tem de ser é louvado. Vasectomia e laqueadura são bem mais efetivos para o meio ambiente do que ativistas do Greenpeace.

A medida não contemplaria apenas os solossexuais. Alguns heterossexuais também não querem filhos. Procriar tornou-se coisa de pobre e caipira. É só ver o crescimento dos dinks – sigla em inglês para casais com renda dupla e sem filhos – entre as classes média e alta das grandes cidades.

Companhia é acessório. E serve apenas para relações profissionais, amizade e coleguismo. Dá até para compartilhar mesa. Em restaurantes e bares. Só que nada de dividir cama e banho.