terça-feira, 28 de setembro de 2010

Geração imprestável

Sou preguiçoso, desligado e não estive à frente das grandes transformações socioculturais da História recente da Humanidade. Foi o que ouvi sobre mim por fazer parte da Geração X, gente nascida entre 1960 e 1980.

A glória do passado está com os Baby Boomers. Esse pessoal nascido após a Segunda Guerra Mundial conquistou a liberdade desfrutada atualmente. Foram aos Baby Boomers que fizeram a revolução sexual. Se hoje não se condena uma transa casual, por exemplo, é graças a eles.

Lutaram contra regimes autoritários em várias partes do planeta. Se bem que uns fizeram parte de ditaduras ou, pelo menos, tinham intenção de implantá-las.

A Geração X é acusada de não ter feito nada. Apenas aproveitou o obtido pelos Baby Boomers. Quando foi às ruas, como no caso dos adolescentes cara-pintadas que participaram de manifestações contra o Governo Collor em 1992, era mais por diversão do que consciência política. Bom lembrar: Collor saiu.

Como de costume, esquecem de atentar para o óbvio. Cada tempo tem suas respectivas demandas. Quando a turma da Geração X chegou à idade adulta não fazia sentido nenhum ficar não embate entre socialismo e comunismo versus capitalismo, por exemplo. Isso já estava superado. Sabia-se que lado havia prevalecido.

No aspecto cultural, restava mesmo era gozar as liberdades que se ofereceram. As coisas apenas caminharam.

O mérito na atualidade cabe à Geração Y. Trata-se da garotada – de 1980 a 2000 – viciada em tecnologia. Eles são eletrônicos. Lançam novas idéias e criam novos negócios.

Não seguem regras antiquadas de administração, como respeitar a hierarquia. Não usam terno e gravata.

Atuam politicamente. Não de forma partidária. Mas sim por intermédio de ong`s e demais coisas sob o rótulo de trabalho social. Assim, estão empenhados na preservação do meio ambiente e no combate às mazelas sociais. Fazem um mundo melhor.

Claro que as divisões geracionais são ferramentas de marketing. Beleza. Gosto delas. Sou chegado em rótulos. Eles fornecem bom material para discussões e sátiras.

Só que nenhuma geração tem mérito ou demérito. As pessoas vão agindo conforme as circunstâncias de apresentam.

Depois de ter sido apontado como um dos culpados pela última crise financeira global – Lula disse que a responsabilidade era de gente de pele clara e olhos azuis -, agora dizem que pertenço a uma geração imprestável.

Ainda bem que emagreci. Só faltava ser gordo para completar minha coleção de credenciais pouco lisonjeiras da atualidade.





Marcelo Amaral

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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Costume negativo

Incomoda-me na cultura brasileira das relações cotidianas a condenação a dizer “não”. Falar “não quero” ou “não vou” quando de uma oferta ou convite é visto como indelicadeza.
 
Há poucos dias fui convidado por uma prima para a festa de aniversário dela. Tinha de ir fantasiado. Agradeci o convite. Só que falei: “Não vou”. Ela me perguntou por quê. Respondi: “Não estou a fim. E não quero me preocupar em ir atrás de fantasia”.

Minha prima ficou chateada. Disse que eu precisava a aprender a me divertir. Continuei a negar minha ida. Até porque eu é que sei o que acho divertido para mim. No caso, foi ficar em casa vendo jogos de futebol e, mais tarde, GNT Fashion e o O Índice da Maldade.
 
No meu pensamento de gente esquisita, é pior inventar uma desculpa. Denotaria mais desprezo do que falar na lata que não quer fazer algo. Não fui desta vez. Mas posso querer ir noutra ocasião. Só que se não quiser me convidar mais, tudo bem.

Esta é a minha utopia: relações pessoais – no Brasil – mais fluidas, simples e diretas. Tem mais: festa de aniversário é coisa para criança. Depois dos 10 anos de idade, para mim, torna-se um problema emocional querer celebrar a data de nascimento. Requer tratamento.

Já ouvi diversas explicações sobre o “não” ser ofensivo entre brasileiros.

Uma antropológica diz que o brasileiro valoriza a sinuosidade. Exemplo: mulheres com curvas. E, como consequência, os discursos tendem a ser mais desviantes, em comparação ao jeito direto de povos como o alemão e o norte-americano.

Outra teoria, de cunho sociológico, especula que a rejeição ao “não” vem da formação do Brasil. É que as relações pessoais no Brasil se estabeleceram – e isso ainda perdura – por cordialidade.

Este conceito de cordialidade se refere ao coração, a ser chegado. Tanto que nepotismo e levar para “sua” patota para ocupar cargos públicos são práticas ainda comuns na vida brasileira.

Aí, por conta dos laços pessoais, fica essa coisa de evitar magoar o outro. Deixa-se de proferir um “não” categórico para não perder o lugar em alguma turma.

Considero que as duas hipóteses têm alguma pertinência. E penso que essa mania de querer ser gente boa acarreta em problemas para o Brasil.

Os exemplos são múltiplos. O sistema judiciário brasileiro é enrolado e procrastinador. Adota uma linguagem pernóstica e prolixa. Se fosse mais direto, dizendo não a diversos recursos, as decisões da Justiça poderiam ser mais céleres.

Há também a burocracia que emperra a abertura e desenvolvimento de negócios. Daí se recorre a uma relação cordial – que muitas vezes é comprada – para que um parente, amigo ou conhecido arrume um documento em algum órgão público. Se fosse dito não a toda papelada requerida, tudo seria mais rápido e funcionaria melhor.

Acho ainda que o não se aplica muito bem às relações cotidianas. Observo que muitas vezes os relacionamentos ficam tensos porque uma das partes não consegue falar “não” à outra.

É um companheiro que faz várias concessões ao parceiro, achando que pode magoá-lo. Coisas como acompanhar o outro em várias exposições de arte, quando queria estar em casa vendo televisão. Só que chega uma hora que a pessoa que faz as concessões não aguenta a pressão e explode.

Daí o parceiro beneficiado pelas concessões se sente enganado. Isto porque achava que o companheiro gostava de fazer a mesma coisa que ele. Não percebia que se tratava de fingimento. Pode virar uma guerra.

Como já não sou apreciador de outros símbolos culturais brasileiros, tipo caipirinha, feijoada e samba, sinto-me liberado a continuar a dizer “não”.





Marcelo Amaral


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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Problemas da paixão

Não sou afeito a relacionamentos amorosos. Pessoas apaixonadas – exceto para seus parceiros de paixão – se tornam maçantes. Mas leio, ouço e vejo coisas sobre o tema. Até para poder atestar que não sou do ramo. Também fico com munição para participar de conversas acerca do assunto, principalmente se for para alfinetar os outros.

Tive um papo recente sobre paixões com duas mulheres que foram minhas colegas de faculdade. Ambas se reconhecem como altamente passionais. Não apenas no aspecto romântico, mas em tudo. Elas precisam de paixão no trabalho, nos estudos e quaisquer outras esferas da vida.

São três questões que me entediam nos passionais. A primeira delas é que eles ficam monotemáticos. Só pensam na outra pessoa – se bem que pode ser também um ideia, uma causa ou, pior ainda, um animal.

Culpa da dopamina e da norepinefrina, substâncias produzidas pelo organismo que dão foco e fixação, conforme descreve o livro Por que amamos?, de Helen Fischer, antropóloga norte-americana que realiza pesquisas, em conjunto com neurocientistas, sobre relacionamentos amorosos. Isso tudo para favorecer o acasalamento e a reprodução.

Outra coisa: passionais e sensíveis se acham dotados de superioridade moral. Arrogar-se superioridade moral já é brega. Em combinação com paixão amorosa, fica mais piegas ainda. É que eles se acham mais humanos, por viverem fortemente as emoções. Assim, julgam-se mais compreensivos e éticos que os demais.

Por conta disso, querem pautar as relações. Impõem um jeito tatibitate na comunicação. Exigem demonstrações de paixão o tempo inteiro. Tem de ser do jeito deles. E pior: não aceitam questionamentos. Só eles podem criticar. Claro, eles são sensíveis, então são superiores e sabem o jeito certo de se comportar num relacionamento. É sufocante.

Aí vem o terceiro aspecto que me chateia no passionalismo: o receio de falar de forma direta. As pessoas normalmente evitam certos assuntos e tons para não ferir as suscetibilidades do sujeito sensível. Isso acaba com o humor, principalmente.

O engraçado é que quando a coisa degringola – um rompimento, uma paixão não correspondida – o friozão aqui vira modelo. As minhas duas colegas de faculdade disseram que gostariam de comprar um pouco dos meus genes, uma vez que sofrem muito com tanta intensidade emocional.

Por isso que esse papo todo de encontrar alguém não me pega. O que as pessoas querem mesmo é a autossuficiência emocional.

Quem não tem tal capacidade, pode recorrer a outro livro de Helen Fischer. Chama-se Por que ele? Por que ela? e trata das personalidades humanas – de acordo com bases químicas, como em Por que amamos? – frente aos relacionamentos amorosos.

Helen Fischer mostra no livro que os Negociadores – forma como ela denomina os passionais - se sentem mais atraídos pelos Diretores, tipos mais objetivos, diretos e menos expressivos emocionalmente. Seria a uma busca por complementaridade em relação ao nhenhenhém deles, os Negociadores.

Não acredito nesse lance de complementar. Indivíduos passionais nunca ficam satisfeitos por muito tempo, pelo que observo. Querem que os outros entrem na mesma pilha deles, sendo tão amorosos e devotados como eles, Negociadores, acreditam ser. Penso que só dá certo com outro passional, que pode compreender melhor e aceitar tanta carga emocional.

Sempre sou questionado quando vou arrumar uma namorada. Respondo que namoro é caro. Jantares, cinema e presentes levam muita grana. O melhor investimento é a solidão. Tem mais: relacionamento engorda.




Marcelo Amaral

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

História de pobre

Tenho uma preguiça monstruosa em relação a empreendedorismo social e histórias de superação. Pior ainda quando isto em é exibido em programas de televisão.

Vi algumas chamadas da série Brasileiros, exibida recentemente pela Globo. Sei que tinha, por exemplo, a história de um bailarino, discriminado pelo pai por ter escolhido esta atividade, que resolveu abrir uma escola de dança clássica na cidadezinha onde nasceu. Assim como outra de um grupo de mulheres jovens que constituíram um fundo de microcrédito em um lugar pobre.

Duvido de um possível efeito multiplicador entre os telespectadores. Penso que ninguém vai se tornar empreendedor social por conta de um programa como este Brasileiros.

Só terá impacto entre as pessoas com propensão à benevolência. Entre aqueles que já ajudam – com trabalho e dinheiro, ou os dois - uma instituição de caridade ou fazem doações diretas. Mas não vai transformar um individualista e egoísta como eu em um altruísta militante e ativo.

O que me chateia neste tipo de coisa é que cria um clima de obrigação de ser solidário. Querem fazer com o não-doador ou não-voluntário se sinta constrangido. E aí vem aporrinhação.

Reclamam do telemarketing de bancos, empresas de cartão de crédito, telefônicas e editoras de revistas. Essa gente enche mesmo o saco. Mas os telepedintes de instituições beneficentes são mais chatos ainda.


Quase que diariamente liga para a minha casa um representante de alguma APAE. Mesmo que seja dito – polidamente - que não é possível ajudar, eles insistem. Apelam para as necessidades das crianças deficientes.

E, pior ainda, alguns deles chegam a mostrar indignação por ter a doação – em dinheiro, umas não aceitam alimentos, querem a grana, claro – negada. Justamente em virtude da tal obrigação de ser solidário que vigora atualmente.

Comigo tem o efeito contrário. Quanto mais insistência pela caridade, menos disposição eu tenho em ajudar. Tanto que nunca liguei para o Criança Esperança.

Já não sou mais cortês com os arrecadadores de dinheiro para beneficência. Digo simplesmente que não vou ajudar porque não quero. E que não fico com a consciência pesada por causa disso.

Assim como despacho os bancos, cartão de crédito, operadores de telefonia e editoras. Mas não é porque tem fim social que pode encher o meu saco com pedidos e supostas lições de moral, ética e solidariedade.

Claro que sou idiossincrático. Para mim, benevolência é um adendo e não um compromisso. Não curto as noções de bem comum, Humanidade e coisas parecidas.

Só que há muito de ridículo nesse fascínio por história de pobre. Isso é conversa de cientista social ultrapassado. O mundo é muito mais complexo do que uma divisão entre pobres – puros e bons – e exploradores.

O mais importante: futebol dá mais audiência que Brasileiros e o show do Criança Esperança.

 


Marcelo Amaral

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Crentes, evangélicos e antipatizantes

Evangélicos neopentecostais famosos deram para se dizer perseguidos. Kaká e Jorginho, auxiliar técnico da Seleção Brasileira na gestão de Dunga, declararam contar com antipatia de parte da imprensa em virtude da religião.

Jorginho pediu respeito por ser cristão. O contexto foi o seguinte. Após a eliminação do Brasil na Copa de 2010, a imprensa esportiva apontou Jorginho como mentor do regime militar – muita concentração, pouco contato com a mídia e torcedores – adotado pela Seleção Brasileira na África do Sul. E entre as questões levantadas estava um possível favorecimento aos evangélicos no time brasileiro.

Exemplo: Jorginho levou para a comissão técnica um observador, Marcelo Cabo, considerado inexperiente para a função de estudar os adversários da equipe brasileira. Apesar da pouca rodagem, Cabo teria sido levado por ser da mesma igreja de Jorginho. O ex-auxiliar disse que a escolha não tinha a ver com religião. Daí a história de ser perseguido e pedir o tal respeito.

Kaká também quer ser respeitado, assim como ele, segundo o próprio, respeita os ateus. O alvo de Kaká foi o jornalista Juca Kfouri, crítico contumaz do merchandising religioso de alguns jogadores.

Tenho problema com a ideia de respeito quando se trata de crenças e opiniões. Expor desaprovação e contrariedade em relação a um credo religioso não constitui desrespeito.

Falta de respeito seria impedir que alguém exerça sua fé. Kaká não tem sido proibido de comemorar os gols apontando os dedos indicadores para cima, olhando para o céu e dizendo “Obrigado, Senhor”. Jorginho também pode rezar o quanto quiser. No ambiente do futebol ou fora dele.

Os evangélicos despertam, sim, antipatia em algumas pessoas. Algo totalmente cabível em função do comportamento e das estruturas de comunicação de massa que possuem.

Neopentecostais são fervorosos. As demonstrações de fé são efusivas. É sempre “Jesus, isso” e “O Senhor aquilo”. Possuem espaços e redes de televisão para divulgar em larga escala sua doutrina e para fazer proselitismo. Elegem bancadas legislativas para aprovar leis – como benefícios fiscais às igrejas – e barrar outras.

E é claro que um segmento com o poder – cada vez maior – político e midiático alcançado pelos evangélicos chateia muita gente. Assim como acontece com grandes empresas, instituições e pessoas muito presentes.

Os futebolistas são expoentes do neopentecostalismo no Brasil. Então, que aguentem os desdobramentos disso. Serão queridinhos de seus colegas de fé, mas desaprovados por outros.

Não é todo mundo que vai achar graça nos jogadores comemorando títulos vestindo camisetas com a inscrição a “I belong to Jesus” em vez das camisas dos clubes ou seleções.

Tanto que a Fifa tratou de enviar um comunicado às seleções – tendo como alvo principal o Brasil –, antes da Copa do Mundo da África do Sul, pedindo que atletas não exibissem mensagens comerciais, políticas e religiosas durante os jogos do Mundial. Não o fez de forma de peremptória para não caracterizar cerceamento de liberdade religiosa.

Ser evangélico neopentecostal ainda é coisa de pobre no Brasil. Mesmo que tenha conquistado adeptos entre membros das classes mais abastadas, este segmento ainda é visto como muito povão. E quem tem mais dinheiro e instrução ao virar evangélico acaba por receber a pecha de bobo. Alguém que se deixa enganar por pastores que querem apenas enriquecer.

Não importa se o rótulo é injusto. Funciona assim: ser evangélico, no Brasil, ainda é falta de gosto. Mesmo com Kaká sendo originalmente de classe mais alta, ter aparência de galã e se vestir com roupas de Giorgio Armani.

Fica sendo o tonto que dá milhões de euros aos donos – que foram presos nos Estados Unidos e respondem vários processos no Brasil - da igreja Renascer em Cristo. E que ainda defende os pastores, dizendo que são vítimas de campanha orquestrada pelo Inimigo.

Evangélicos não são perseguidos. Eles que é perseguem os outros com tanta pregação. E aí, claro, despertam muita antipatia.






Marcelo Amaral


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terça-feira, 20 de julho de 2010

Natureza de morte

Encaro a maldade como natural. Sou apreciador de séries e livros policiais que tratam de psicopatas e criminosos brutais. E, por estar familiarizado com a coisa, não me choco com crimes hediondos que se tornam casos de grande repercussão. Tento é estabelecer conexões com o que vi e li em programas e textos.

Segundo Martha Stout, psicóloga norte-americana e autora do livro Meu vizinho é psicopata, cerca de 4% da população humana é composta de indivíduos com personalidade antissocial. Gente que não se importa em causar sofrimento aos outros.

Nem todo psicopata é assassino ou mandante de homicídio. Segundo a mesma Martha Stout, em torno de 1% do total de sociopatas chega a matar.

Entre as séries em estilo de documentário sobre assassinos, minha preferência fica com O índice de maldade, do Discovery Channel. É apresentada pelo psiquiatra forense norte-americano Michael Stone, criador de uma escala que vai de 1 a 22 para classificar os matadores brutais.

Agrada-me o tom sóbrio e intelectualmente especulativo do doutor Stone, em contraste com sensacionalismo e tom salvador empregado em outras produçõs. Apesar do nome O índice da maldade – o original em inglês é Most Evil -, não tem histeria nem falsas promessas de encontrar um ser humano melhor.

Destaco as entrevistas que o psiquiatra faz com assassinos em série. Exemplo: Tommy Lynn Sells, que está no nível mais alto da escala de Stone. Sells matou cerca de 70 pessoas. O número pode ser ainda maior. Matava indiscriminadamente: homens, mulheres e crianças. Jovens e idosos. Variava também o método.

De maneira sóbria, o doutor leva o assassino a contar sobre o prazer de matar. Sells declara que a sensação de enfiar uma lâmina em alguém é, para ele, como uma droga. Ainda é irônico. Fala que prefere facas a armas de fogo, pois estas últimas são perigosas. E revela, claro, a falta de remorso.

Uma figura assim é mais interessante de ouvir do que os considerados bonzinhos. Eles estão fora do esquema das pregações sobre ética e moralidade. E aí viram personagens interessantes. Não dá para aguentar o tempo inteiro o nhenhenhém sobre ser do bem.

Maldade é fascinante. Basta ver o sucesso de personagens como Hannibal Lecter, o psiquiatra refinado e canibal, criado pelo escritor norte-americano Thomas Harris.

Não sou muito dado a rever filmes. Mas O silêncio dos inocentes eu já vi várias vezes para curtir a forma como Lecter provoca e manipula a mente de Clarice Starling, a agente novata do FBI que vai entrevistá-lo em um manicômio judiciário. O médico troca informações e opiniões que podem levar à captura de um assassino em série pelos segredos e medos de Starling.

Eu preferiria entrevistar um psicopata assassino como Tommy Lynn Sells do que uma freira. Assim também como me aconselharia com Hannibal Lecter. Claro que em ambiente controlado.

Pelo que as neurociências descobriram até agora, não há tratamento para sociopatia. Menos ainda para os assassinos. Só param quando presos – embora ainda possam matar na prisão - ou mortos. Então, só resta contar com a existência natural da crueldade.



Marcelo Amaral

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terça-feira, 22 de junho de 2010

Nada tradicional

Não sou simpático a tradições. Refiro-me mais especificamente a manifestações culturais como músicas regionais, danças e festas. O mais chato é que o rótulo de tradicional leva a uma imposição de curtir e participar de eventos. Se eu digo que não gosto, logo alguém pede respeito a antigos costumes.

É o caso de festa junina. Mesmo há muito declarando que não aprecio esse tipo de coisa, pessoas insistentes ou que pouco me conhecem ainda me convidam para alguma quermesse em junho e julho. Respondo a tais convites dizendo que não me atrai ficar em um ambiente que remete a caipirice. O mundo atual é urbano. E eu gosto disso. Áreas rurais servem para produzir alimentos e outros tipos de produtos para os consumidores das cidades.

Se bem que o rótulo de caipira tornou-se positivo. Aquela coisa da globalização: ao mesmo tempo em que espalha comportamentos similares para várias regiões do planeta, também aguça sentimentos provincianos. E caipira virou marca de pureza e generosidade frente ao suposto narcisismo e egoísmo dos habitantes das metrópoles.

É um clichê. A despeito da gritaria antiglobalização, ela possibilita mais contato entre culturas. Possibilita que as pessoas montem seus cardápios de identidades e estilos. As escolhas podem ser utilitárias – assumir-se índio para obter benefícios legais, por exemplo – ou por gosto. E, desta forma, certos costumes se chocam. Uns permanecem. Outros se modificam. E há os que morrem.

Tradições não precisam ser necessariamente preservadas. O fato de ser um costume antigo que atravessa gerações não garante nada. Se uma tradição tiver que ser esmagada, por força de mercado, que seja.

Exemplo: música sertaneja de raiz. Raiz é outro termo empregado para ganhar simpatia. Não tenho pena dos velhinhos caipiras de vozes esganiçadas que não conseguem mais espaço para seu tipo de música.

Já era. Muitos consumidores não querem saber deles. Colocaram no lugar o gosto pela música brega ou o sertanejo das duplas, com instrumentos eletrônicos e cantores com roupas apertadas e cabelos arrumados. Moda de viola fica para os saudosistas.

Festa junina de novo. Sei que é uma tradição que ainda sustenta. Muita gente me diz que vai por causa das crianças. Porque o filho, sobrinho ou afilhado vai dançar quadrilha. Mas adulto urbano se vestindo de caipira é demais.

Curto as tradições quando elas são superadas. Gosto de ouvir “antes tinha isso e aquilo, mas agora não tem mais”.





Marcelo Amaral

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